Não gosto de conversar com seu João, não que ele seja uma pessoa ruim ou de papo furado, mas é que toda conversa com seu João parece um monólogo meu, um desabafo, mal consigo ouvir a voz do meu sindico. Sexta passada eu cheguei cedo do encontro no barzinho com meus amigos e seu João estava lá, sentando em sua cadeira giratória, mostrando seu sorriso sincero e de dente amarelado para qualquer um que entrasse no prédio “Boa noite, dona Ana” o som nasalado de sua voz ecoou pela entrada que naquele momento se encontrava vazia, como resposta seu João recebeu apenas um “Noite” da minha parte, as rugas da testa dele começaram a ficar em evidência parecia que ele sabia dos meus problemas, seu João sempre sabia. “Qual é o problema?” o tom sério e a preocupação estavam expostos, seu João poderia estar preocupado apenas com meu apartamento no 7º andar ou com o encanamento do apartamento ao lado do meu que cismava em fazer barulhos durante a noite, mas eu sabia que devia falar do meu real problema no momento “Lealdade, seu João”.
Seu João era homem vivido de grande sabedoria, não precisava falar pra sabermos que ele esperava bem mais que uma simples palavra “Sou leal demais, seu João, mesmo quando não preciso mais ser leal a ninguém eu continuo sendo. Acho impossível deixar de gostar de quem gostei um dia, é difícil não confiar mais, tenho esse problema de amar demais e confiar demais.” Estava doendo o peito e seu João me ofereceu a cadeira de ajudante ao seu lado, eu adorava aquela cadeira, “Eu não entendo como conseguem, não entendo esse amor até deixar de ser, isso vale pra tudo não é? Mas mamãe sempre dizia que não importa o que sua filhinha se tornasse ela sempre me amaria, por que todos os amores não podem ser eternos como o de mamãe?” Olhei de soslaio para seu João, os olhos do homem estavam fixos em mim e a expressão amigável não saia de seu rosto, às vezes chegava a ser irritante “Vi meus amigos brigarem ontem e exigirem a lealdade dos outros na mesa, mas como escolher entre seus dois melhores amigos e manter a amizade com os dois depois? Isso não me parece nada justo, seu João. Eu não pude. Eu não quis escolher isso. Tem vezes que eu não quero nem ao menos escolher entre escova de dente normal e escova elétrica, mas meus amigos não são escovas e eles exigem que eu escolha um ou o outro então eu fui embora, fiz errado seu João?” Eu não sabia se seu João estava afirmando ou negando, contudo não consegui parar de falar “Estou com medo de perder alguém, não sei como deixam com facilidade que a amizade se esvaia, eu até tento não ligar as vezes e vejo que todo mundo sabe fazer isso bem melhor do que eu, mas não me preocupo mais com isso, enquanto eu me importar vai fazer sentido essas amizades diferentes e todas essas pessoas sem nenhuma ligação sorrindo e bebendo juntos só pelo prazer da companhia um do outro não é?” Sorri para seu João que parecia ter paralisado naquela posição “Obrigada, seu João” eu lhe dei um abraço rápido e fui me levantando para ir em direção ao elevador que tinha uma placa de ‘Em Manutenção’ bufei irritada e virei para seu João carrancuda “Deviam consertar esse elevador, seu João, estou cansada de subir escada não podemos continuar com esse problema.”
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